lonely 1



Saturday, July 07, 2012
s. miguel

vejo os nomes nas pedras.
piso as pedras. os nomes
nas pedras não me dizem
absolutamente nada mas
numa época que já não
a minha falaram, moveram-se
como me movo sobre
as pedras, regaram
plantas, tiveram febres,
cancros, constipações.
noutros poemas li mais
ou menos as mesmas coisas,
porque é natural pensar-se
nisto: as vidas dos mortos.
agora são nomes e não
me dizem nada, não me
comunicam nada - é também
por culpa dos dias de hoje,
a minha insensibilidade, o meu
caroço de simpatia tão difícil
de aceder por causa da carne
de egoísmo que o rodeia.
posso imaginar a vida
dos mortos dentro destes
muros, o silêncio da vida dos
mortos, as suas sombras, os
dias em que choveu muito e
apanharam doenças, os dias em
que morreram porque choveu muito,
enquanto os cavalos corriam
junto ao rio sem essas preocupações.
a minha inutilidade é que se mostra,
total e inteira, quando noto que
nem sei quem são os mortos,
e esses que a minha imaginação
ressuscita são só projectos de almas
mudas que não pertencem a nenhum sítio.

Posted at 02:12 am by pedro tiago

 

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…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


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