lonely 1



Wednesday, June 06, 2012
lençol de água

beijar-te porque
é como beijar
uma sinfonia
que nunca
compuseram.

Posted at 04:44 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Tuesday, May 29, 2012
modular home

finding no solace, no relief in speech,
Rose drove all through the rundown
part of town in search of a man who
would just stand next to to her in silence
and held her hand. because sometimes
men are useless and most of the time
they do not even amount to that
uselessness. she knew the expression
"finding no solace" was cliché'd but,
still, it really was what she meant to
say when she thought it, when
her brain's mouth spoke it. "finding
absolutely no solace whatsoever
in speech, i must drive all through
the rundown part of town in search
of a watch that can still tell me whether
it's time to give up breathing or not".
instead she found a man leaving the
old automat, looking sad and aged,
capable of silence and decline. so,
they spent the night in her car,
under the railway overpass, saying
nothing, eating away at a sandwich
and seeing lights flickering, electric
daily fireflies dying on top of steel sail-
-less masts on ghost shipwrecked ships
sinking heavily into the city's belly.


Posted at 02:08 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Monday, May 21, 2012
uma activista de esquerda

(de certeza
absoluta que,
sob o
tabaco que
se te
prende à
pele, cheiras
a madeira
fresca e
a líquenes
novos e
a outros -
muitos mais -
excessos de
vida silvestre.
)

Posted at 02:59 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

obstante

morrer-se de cólera nos inícios do século
XX, com as mãos dependuradas e só
um avental vestido, mais nada, a pele
suja de sangue e as unhas, as fendas
mínimas das unhas, perto da carne,
sujas de sangue e de coalho e de preto,
com as as costelas à vista, assemelhando-se
a um instrumento de percussão, de
perscrutação, clínicas e doentes, prontas
a terem medicamentos prescritos. a poesia
desapareceu mais do que deus e o homem.
reside nestes dias dentro das coisas fotovoltáicas
que tremem dentro das máquinas,
nos cafés e nas repartições de finanças e
nos hospitais e nas bibliotecas. mas ao
morrer-se de cólera nos inícios do século
XX, com a poesia dependurada e só
uma palavra vestida, mais nada, a pele
suja de unhas e o sangue, as fendas
mínimas do sangue, perto da carne,
sujo de unhas e de coalho e de preto.
o preto não é uma cor mas por motivos
de pragmática e semântica é uma cor.

Posted at 02:48 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

ófrio

que argumento é prateado como
o mercúrio dos termómetros partidos,
como o dorso dos peixes, reflectido
no espelho da parte de cima da
água? nenhum. o argumento coze-se
e os lábios cosem-se e as
árvores morrem e ressucitam, da
forma a que nos fomos habituando.

Posted at 12:52 pm by pedro tiago
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Tuesday, May 15, 2012
perdiz de loiça

a mulher olha as teclas muito tempo
antes de escrever e assim que escreve
é a palavra "renal". e decide começar
um poema com a palavra "renal", mas
isso não a deixa particularmente feliz.
se com "renal" puder falar de máquinas,
fazer analogias entre óleo e sangue,
entre tubos e veias, cabos e nervos,
metal e carne, vidro e olhos, sem ter de
se desviar muito do assunto, porque
a preocupa que o poema seja coerente
e coeso, que faça sentido e que os
outros o possam tocar com as bocas
da cabeça e, ao fingir saboreá-lo,
dizerem, entre si, "que obra magnífica!"

Posted at 02:32 pm by pedro tiago
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Friday, May 11, 2012
mil

um homem dentro de um armário exige um
talher embora visualize a palavra mentalmente
ortograficamente errada ("talhere"), tem um
prato na escuridão e na falta de ar, não
consegue respirar e tem fome, as mãos ficam
húmidas com o calor mas ensinaram-no que
nunca, sob circunstância alguma, se deve
comer com as mãos. por isso, a comida
derrete e apodrece no colo, em cima de um
prato, e o ar rareia. a morte pesa pouco.
interfere pouco. é um corte na mão, a morte.
houve um homem que morreu, com as suas
unhas já mortas, e recortaram-lhe a fotografia
do bilhete de identidade para o obituário, onde
o colocaram ao lado de outras mulheres e homens
que morreram. dentro de um armário, tanta morte.
a escolher fotografias correctas para um obituário
fechado no escuro, a tactear o relevo, no desespero
imperativo das impressões digitais que também
acumulam pó e lixo orgânico. tem uma nítida
recordação de pianos numa praia e de folhas
de partituras, tudo isso dentro dos dedos magros
da morte, na paisagem que é a morte, dentro de
um armário forrado de jornais nas páginas de
necrologia. ninguém fala da morte no escuro,
ninguém arranha a morte em florestas de
faias. com todas as necrologias pode-se
construir um barco gigantesco que siga na
direcção oposta ao sol, navegando para onde
seja sempre noite, onde seja sempre unhas e
escuro e mulheres que choram nas praias
pelos maridos que morreram no mar a bordo
de pianos e folhas soltas de partituras.

Posted at 04:29 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

cracked hearts

dá para se ficar mais de três horas na gare dos autocarros,
na província, com calor e máquinas de distribuição de
snacks e de refrigerantes avariadas, com os corações
já destruídos e nenhuma capacidade de engolir moedas.
há uma mulher que diz que "se a vida é um erro lamentável,
se tem muitos erros tipográficos, porque não nos preocupamos
com isso? ao lermos um livro, irritam-nos os erros tipográficos,
deviam-nos irritar mais aqueles que pejam as nossas vidas.
porque às vezes os livros são como vidas, mas por mais que
tentemos as vidas nunca chegam a ser como livros." a
mulher está de chinelos e deixou o cigarro apagar-se-lhe
entre os dedos há mais de uma hora e dez minutos. não
há nenhum autocarro para ela, nenhum transporte que
a leve. não há transportes, não há pessoas para irem
dentro dos transportes e, por isso, acabaram com os
transportes. tudo são pequenos erros tipográficos, mas
se nos irritam, nos livros, deviam irritar-nos ainda mais,
na vida. mas não lhes damos importância. nunca podemos
dar importância a nada, dizem que não nos devemos
preocupar com nada, nem com as cinco ou seis horas, ao
calor e sem máquinas de venda a funcionar, à espera na
gare dos autocarros. que isso são erros tipográficos.
são fins de poemas, são pequenas exactidões religiosas
numa comunhão com vides secas e cigarros apagados
nas mãos de uma mulher há mais de uma hora e um quarto.

Posted at 02:49 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Friday, May 04, 2012
um traço de jug

no incêndio em que a casa desaparece
não se sente o cheiro desconfortável
das flores de plástico e dos tupperwares.
são muitos graus fahrenheit, os necessários,
com vista a que a casa desapareça, se
desmorone sobre os seus próprios despojos
e lixo incandescente que não foi lixo para
todos os corpos que nele se esconderam
através de alguns anos. na estrada vê-se
as almas do fogo a subir sob a forma de
fagulha, de vaga-lume metaficcional.


Posted at 11:58 am by pedro tiago
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Wednesday, May 02, 2012
outra renda

uma espécie de resposta a um poema de uma amiga.

no encontro a voz não se assemelhou
a veludo, só a guardanapos. "preciso",
dizes, com os lábios humedecidos só
um pouco e as pernas cruzadas, o
encontro talvez se resuma a isso. e
passas, obviamente, os dedos por
entre os seios, se tivesse sido eu a
dizê-lo diria "mamas", é a grande
diferença entre ser-se um homem,
estar preso em anèr, andròs e
em épocas que são como plantas
mortas que se abrem à chuva, fingir,
fingir um bocado que não, que tenho
uma permuta com um útero de
estrogénio e um feto ligeiro como
um jarro de vidro para flores. tu
estás no encontro, com as mamas e
as pernas, o vestido e os lábios.
distante daqui, tudo o que dizes
tem a forma de um silêncio, de
um cavalo cinzento escondido
debaixo de líquenes e de pedras.
atira o fumo do tabaco todo contra
o tecto, contra os olhos, fecha os
olhos, relincha quando for de noite,
quando os teus dedos fazem desabrochar
uma camélia de carne e água escondida
no calor das coxas.

Posted at 01:19 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

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lonely 2

…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


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Atom Fims
Bungle Fever
Charlie "Yardbird" Parker
Dario Mitidieri
Dead Combo
Edgar Libório
Entrance to The Neitherworld
Fat-pie
Gogol Bordello
Festival de Jazz de Valado dos Frades
João Pombeiro
John Coltrane
John Howe
JP Simões
The Kills
Mark Ryden
Menomena
Miles Davis
Morphine (fanzine)
Peter Gric
The Encyclopedia Of Arda
The Tim Burton Collective
The World Of Stainboy

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A Caixa
A liga de Murphy
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Atravessando o Inverno
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