lonely 1



Monday, May 21, 2012
ófrio

que argumento é prateado como
o mercúrio dos termómetros partidos,
como o dorso dos peixes, reflectido
no espelho da parte de cima da
água? nenhum. o argumento coze-se
e os lábios cosem-se e as
árvores morrem e ressucitam, da
forma a que nos fomos habituando.

Posted at 12:52 pm by pedro tiago
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Tuesday, May 15, 2012
perdiz de loiça

a mulher olha as teclas muito tempo
antes de escrever e assim que escreve
é a palavra "renal". e decide começar
um poema com a palavra "renal", mas
isso não a deixa particularmente feliz.
se com "renal" puder falar de máquinas,
fazer analogias entre óleo e sangue,
entre tubos e veias, cabos e nervos,
metal e carne, vidro e olhos, sem ter de
se desviar muito do assunto, porque
a preocupa que o poema seja coerente
e coeso, que faça sentido e que os
outros o possam tocar com as bocas
da cabeça e, ao fingir saboreá-lo,
dizerem, entre si, "que obra magnífica!"

Posted at 02:32 pm by pedro tiago
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Friday, May 11, 2012
mil

um homem dentro de um armário exige um
talher embora visualize a palavra mentalmente
ortograficamente errada ("talhere"), tem um
prato na escuridão e na falta de ar, não
consegue respirar e tem fome, as mãos ficam
húmidas com o calor mas ensinaram-no que
nunca, sob circunstância alguma, se deve
comer com as mãos. por isso, a comida
derrete e apodrece no colo, em cima de um
prato, e o ar rareia. a morte pesa pouco.
interfere pouco. é um corte na mão, a morte.
houve um homem que morreu, com as suas
unhas já mortas, e recortaram-lhe a fotografia
do bilhete de identidade para o obituário, onde
o colocaram ao lado de outras mulheres e homens
que morreram. dentro de um armário, tanta morte.
a escolher fotografias correctas para um obituário
fechado no escuro, a tactear o relevo, no desespero
imperativo das impressões digitais que também
acumulam pó e lixo orgânico. tem uma nítida
recordação de pianos numa praia e de folhas
de partituras, tudo isso dentro dos dedos magros
da morte, na paisagem que é a morte, dentro de
um armário forrado de jornais nas páginas de
necrologia. ninguém fala da morte no escuro,
ninguém arranha a morte em florestas de
faias. com todas as necrologias pode-se
construir um barco gigantesco que siga na
direcção oposta ao sol, navegando para onde
seja sempre noite, onde seja sempre unhas e
escuro e mulheres que choram nas praias
pelos maridos que morreram no mar a bordo
de pianos e folhas soltas de partituras.

Posted at 04:29 pm by pedro tiago
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cracked hearts

dá para se ficar mais de três horas na gare dos autocarros,
na província, com calor e máquinas de distribuição de
snacks e de refrigerantes avariadas, com os corações
já destruídos e nenhuma capacidade de engolir moedas.
há uma mulher que diz que "se a vida é um erro lamentável,
se tem muitos erros tipográficos, porque não nos preocupamos
com isso? ao lermos um livro, irritam-nos os erros tipográficos,
deviam-nos irritar mais aqueles que pejam as nossas vidas.
porque às vezes os livros são como vidas, mas por mais que
tentemos as vidas nunca chegam a ser como livros." a
mulher está de chinelos e deixou o cigarro apagar-se-lhe
entre os dedos há mais de uma hora e dez minutos. não
há nenhum autocarro para ela, nenhum transporte que
a leve. não há transportes, não há pessoas para irem
dentro dos transportes e, por isso, acabaram com os
transportes. tudo são pequenos erros tipográficos, mas
se nos irritam, nos livros, deviam irritar-nos ainda mais,
na vida. mas não lhes damos importância. nunca podemos
dar importância a nada, dizem que não nos devemos
preocupar com nada, nem com as cinco ou seis horas, ao
calor e sem máquinas de venda a funcionar, à espera na
gare dos autocarros. que isso são erros tipográficos.
são fins de poemas, são pequenas exactidões religiosas
numa comunhão com vides secas e cigarros apagados
nas mãos de uma mulher há mais de uma hora e um quarto.

Posted at 02:49 pm by pedro tiago
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Friday, May 04, 2012
um traço de jug

no incêndio em que a casa desaparece
não se sente o cheiro desconfortável
das flores de plástico e dos tupperwares.
são muitos graus fahrenheit, os necessários,
com vista a que a casa desapareça, se
desmorone sobre os seus próprios despojos
e lixo incandescente que não foi lixo para
todos os corpos que nele se esconderam
através de alguns anos. na estrada vê-se
as almas do fogo a subir sob a forma de
fagulha, de vaga-lume metaficcional.


Posted at 11:58 am by pedro tiago
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Wednesday, May 02, 2012
outra renda

uma espécie de resposta a um poema de uma amiga.

no encontro a voz não se assemelhou
a veludo, só a guardanapos. "preciso",
dizes, com os lábios humedecidos só
um pouco e as pernas cruzadas, o
encontro talvez se resuma a isso. e
passas, obviamente, os dedos por
entre os seios, se tivesse sido eu a
dizê-lo diria "mamas", é a grande
diferença entre ser-se um homem,
estar preso em anèr, andròs e
em épocas que são como plantas
mortas que se abrem à chuva, fingir,
fingir um bocado que não, que tenho
uma permuta com um útero de
estrogénio e um feto ligeiro como
um jarro de vidro para flores. tu
estás no encontro, com as mamas e
as pernas, o vestido e os lábios.
distante daqui, tudo o que dizes
tem a forma de um silêncio, de
um cavalo cinzento escondido
debaixo de líquenes e de pedras.
atira o fumo do tabaco todo contra
o tecto, contra os olhos, fecha os
olhos, relincha quando for de noite,
quando os teus dedos fazem desabrochar
uma camélia de carne e água escondida
no calor das coxas.

Posted at 01:19 pm by pedro tiago
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Monday, April 30, 2012
200 MHz

são ignotos os bichos que escondemos
há tantos anos no peito, demorados,
lentos, silenciosos. das mãos sai uma
estrada, os olhos saboreiam um mel
de fígados e de vidros espalhados,
de termómetros partidos com mercúrio
pelo chão, na alcatifa, perto dos
homens e das velas de aniversário.

os animais escondidos vão morrendo,
a pouco e pouco fica só um peso e
decomposição e húmus no peito,
décadas é tempo a mais para que
um animal aguente, sobreviva. lá
fora é o que vemos, os cães morrem
mais depressa que as pessoas.
não semeámos anjos nem divindades
áureas no peito, nada dessas platinas
clássicas; só animais, coisas baixas,
rentes ao chão, silenciosas, que nos
vão perecendo dia após dia,
até não restar nenhum e termos de
os pescar pela boca, cadáveres escuros
de outro tempo, bolas gasosas,
lagartas que não tiveram tempo de
dentro da crisálida do nosso peito
se transformar em borboletas de fogo.

Posted at 11:32 am by pedro tiago
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Friday, April 27, 2012
depois de atravessar o oceano

come-se um peixe com o cuidado minucioso de escolher as espinhas dentro da boca, um temor relativo porque desagrada ferir as bochechas por dentro com objectos estranhos e não comestíveis. está escuro, entardeceu, faz falta a voz de uma mulher que diga "já vou" e contra a luz que resta conseguir ir percebendo uma silhueta. o peixe é mais difícil no escuro, não aparenta ter voz nenhuma, assemelha-se a uma bailarina recém-divorciada com os pés inchados, aos quarenta e um anos, a saber naquele momento que a vida não tem propósito nenhum, só uma amargura constante, um emprego, uma utilidade, é importante ao menos ser-se útil. o peixe corrige-me como aqueles professores que já não tinham esferográficas de tinta vermelha quando chegava ao nosso número (17, 19, 21) e escreviam a verde "incompleto" "incoerente" "boa ideia, mas má concretização". o peixe escreve a verde, é uma boa cor para as espinhas do peixe dentro da boca, incompletas, incoerentes, incostantes, com boas ideias, mas péssimas concretizações. no escuro custa encontrar amigos, há pessoas que fazem companhia numas horas, mas o tempo que se passa isolado, sós connosco, é como uma espinha que se alojou no apêndice, ao pé de carros de brincar, seringas, guarda-chuvas, bocados de tecido que tomaram a forma de asas ou outras partes de insectos e mamíferos alados. comer um peixe cozido, no sótão, com a chuva na clarabóia, o chão sujo de espinhas e escamas e a casa vazia, só o corpo e um peixe, um peixe destruído, nem sequer morto, destruído, esburacado, bocados de carne rente às espinhas mais pequenas, todas irritam na língua e nas gengivas, e se falta a paciência para o amor também falta, há muito mais tempo, a paciência para ter espinhas de peixe no aparelho digestivo.

Posted at 04:08 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

(se.gredo)

há homens que pensam
como plantas e há homens
que pensam como pássaros
e homens que pensam ainda
como nuvens ou carros
aviões máquinas variadas
há homens que pensam como
mulheres
mas ainda não encontrei
mulheres que pensem
como homens e isso
é triste e doloroso
porque me dá a impressão
de que devia gostar mais
de homens sobretudo dos
homens que conseguem pensar
como mulheres ou pelo menos
dos que sabem fazê-lo como
nuvens.
prefiro no entanto pensar em
mulheres que só sabem ser
mulheres mesmo que no fim
isso sejam só dissabores
desencantos e
muitas nuvens apertadas
nas mãos nos ossos na carne
a oferecer muita humidade
e desconforto ao organismo.

Posted at 01:36 am by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Thursday, April 26, 2012
las aguas estancadas

quem, de entre vós, não tiver pecados, que atire
a primeira pedra mas, no caso de não haver pedras
à mão,
pode arremessar um livro, um abat-jour, uma
mala ou um cinzeiro.

Posted at 11:31 pm by pedro tiago
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lonely 2

…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


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Charlie "Yardbird" Parker
Dario Mitidieri
Dead Combo
Edgar Libório
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Fat-pie
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