lonely 1



Friday, June 15, 2012
barítono

"um poema é ver." um poema é
chorar sobre os corpos que secaram,
sobre os que morreram, que se
esconderam em necrotérios, um
poema é ver que aqueles que se
esconderam na voz dos nomes
estrangeiros são iguais aos que
morreram, é dizer um nome outrora
conhecido e de repente a língua
estar só a dizer pó e livros velhos
sem interesse. um poema é esconder
os cadáveres dos animais de estimação
na sala grande, com o candelabro
aceso. mas um poema não é nada
disto, um poema é reconhecer que
um poema não é nada disto. um poema
passa obviamente por destruir a
palavra "poema", dilacerar o seu significado
o seu significante
até não restar nada e nesse campo
vazio poder olhar o horizonte e dar-lhe
um nome, povoá-lo com os pedaços
de amor e de medo que nos restam,
chamar-lhe "çretitre", parir duas mãos
que lavrem a terra infértil, jantar a voz
dos nomes estrangeiros, amar a solidão
quando sozinhos, à noite, não há novas
mensagens nos aparelhos e no electromagnetismo
da telecomunicação moderna, e depois
dizer que um poema é ver, que um poema
é saber ver, poder dizer, poder desconstruir,
estar só no meio de uma nódoa branca
onde as palavras são um ambiente
de comparações infrutíferas.

Posted at 02:19 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

não ver que a verdade,

na internet
H diz procurar
um homem divertido, sincero,
responsável, trabalhador
para amizade ou algo mais.
está a sorrir numa fotografia, no
canto superior esquerdo
de um rectângulo. o resto
do rectângulo está-lhe dedicado,
pagou por ele, alugou um
pequeno espaço para dizer
que tem qualidades, defeitos
menores, que gosta
de aventura, de mistério,
de surpresa, que não
pode comer ovos, porque a fazem
ficar indisposta, que já está
há mais de três anos sem
ir às consultas de psicoterapia
e que se sente bem consigo
mesma. e no computador
portátil, aberto ao meu lado
na mesa da esplanada do café
habitual, este homem está
parado em H, atentamente
a ler o que H diz acerca
de si mesma. mas se for alérgico
à saliva dos gatos é possível
que nunca a convide para sair,
que nunca se apresentem com
base no emprego que têm, e não
nas pessoas que são ou que, no mínimo,
julgam ser.

Posted at 11:49 am by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Saturday, June 09, 2012
descalcificação

as mãos contra as mãos e um
pedaço de ferro dentro da boca
e a roupa que não serve e as
árvores e o caminho de terra
onde as cabras e os corvos

o meu pai

assanhado como um animal
como uma cabra como um
corvo e a garganta do meu
pai como roupa que não serve
num espaço de mitologias
que mais parecem gramáticas

se se vir bem a sintaxe musical
da mitologia,
entenda-se,
amanhã quando a cabeça do
meu pai couber nos bolsos e
dos campos colherem couves
de pus e de linfa e os
corvos apanharem os
meus olhos nos bicos para
que as futuras gerações não
morram. não me desagrada que
o meu suor nas mãos contra
as mãos

contrariando as mãos.

Posted at 02:22 am by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Friday, June 08, 2012
costuma ser o esquerdo

ninguém voltou do mar naquela tarde e os
corpos que esperavam na praia eram mais
como barcos naufragados quando os
pedaços de barco naufragado deram à
costa. nessa noite disse coisas sobre o
amor e sobre a poesia junto ao teu pescoço
e fingiste que te interessava. o amor e a poesia
não têm grande relevância prática junto
ao teu pescoço quando as pessoas que
esperavam na praia pelos que morreram
no mar naquela tarde andavam agora à
solta pela vila e as suas mágoas eram
maiores do que o facto de não me poderes
amar. e nas esquinas as putas naufragavam
com o resto dos homens que tinham
chegado à costa com restos de redes
e de crustáceos, com todo o amor e com
toda a poesia que nos faltou encontrar juntos.

Posted at 01:44 am by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Wednesday, June 06, 2012
lençol de água

beijar-te porque
é como beijar
uma sinfonia
que nunca
compuseram.

Posted at 04:44 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Tuesday, May 29, 2012
modular home

finding no solace, no relief in speech,
Rose drove all through the rundown
part of town in search of a man who
would just stand next to to her in silence
and held her hand. because sometimes
men are useless and most of the time
they do not even amount to that
uselessness. she knew the expression
"finding no solace" was cliché'd but,
still, it really was what she meant to
say when she thought it, when
her brain's mouth spoke it. "finding
absolutely no solace whatsoever
in speech, i must drive all through
the rundown part of town in search
of a watch that can still tell me whether
it's time to give up breathing or not".
instead she found a man leaving the
old automat, looking sad and aged,
capable of silence and decline. so,
they spent the night in her car,
under the railway overpass, saying
nothing, eating away at a sandwich
and seeing lights flickering, electric
daily fireflies dying on top of steel sail-
-less masts on ghost shipwrecked ships
sinking heavily into the city's belly.


Posted at 02:08 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Monday, May 21, 2012
uma activista de esquerda

(de certeza
absoluta que,
sob o
tabaco que
se te
prende à
pele, cheiras
a madeira
fresca e
a líquenes
novos e
a outros -
muitos mais -
excessos de
vida silvestre.
)

Posted at 02:59 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

obstante

morrer-se de cólera nos inícios do século
XX, com as mãos dependuradas e só
um avental vestido, mais nada, a pele
suja de sangue e as unhas, as fendas
mínimas das unhas, perto da carne,
sujas de sangue e de coalho e de preto,
com as as costelas à vista, assemelhando-se
a um instrumento de percussão, de
perscrutação, clínicas e doentes, prontas
a terem medicamentos prescritos. a poesia
desapareceu mais do que deus e o homem.
reside nestes dias dentro das coisas fotovoltáicas
que tremem dentro das máquinas,
nos cafés e nas repartições de finanças e
nos hospitais e nas bibliotecas. mas ao
morrer-se de cólera nos inícios do século
XX, com a poesia dependurada e só
uma palavra vestida, mais nada, a pele
suja de unhas e o sangue, as fendas
mínimas do sangue, perto da carne,
sujo de unhas e de coalho e de preto.
o preto não é uma cor mas por motivos
de pragmática e semântica é uma cor.

Posted at 02:48 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

ófrio

que argumento é prateado como
o mercúrio dos termómetros partidos,
como o dorso dos peixes, reflectido
no espelho da parte de cima da
água? nenhum. o argumento coze-se
e os lábios cosem-se e as
árvores morrem e ressucitam, da
forma a que nos fomos habituando.

Posted at 12:52 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Tuesday, May 15, 2012
perdiz de loiça

a mulher olha as teclas muito tempo
antes de escrever e assim que escreve
é a palavra "renal". e decide começar
um poema com a palavra "renal", mas
isso não a deixa particularmente feliz.
se com "renal" puder falar de máquinas,
fazer analogias entre óleo e sangue,
entre tubos e veias, cabos e nervos,
metal e carne, vidro e olhos, sem ter de
se desviar muito do assunto, porque
a preocupa que o poema seja coerente
e coeso, que faça sentido e que os
outros o possam tocar com as bocas
da cabeça e, ao fingir saboreá-lo,
dizerem, entre si, "que obra magnífica!"

Posted at 02:32 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

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lonely 2

…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


Alguns links:

Atom Fims
Bungle Fever
Charlie "Yardbird" Parker
Dario Mitidieri
Dead Combo
Edgar Libório
Entrance to The Neitherworld
Fat-pie
Gogol Bordello
Festival de Jazz de Valado dos Frades
João Pombeiro
John Coltrane
John Howe
JP Simões
The Kills
Mark Ryden
Menomena
Miles Davis
Morphine (fanzine)
Peter Gric
The Encyclopedia Of Arda
The Tim Burton Collective
The World Of Stainboy

Blog links:

"borderline bipolar"
A Caixa
A liga de Murphy
arco-iris
Atravessando o Inverno
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