lonely 1



Thursday, July 05, 2012
fogo de artifício e húmus

os homens do serviço de meteorologia
percebem mais de poesia do que eu
quando me dizem à distância ao longo
dos cabos do cobre da fibra óptica
que estão 17 graus centígrados na
zona do Cabo Carvoeiro só que não
pensam nisso e eu sim eu penso
nisso e observo-os a construir um
conjunto de metáforas de imagens de
poemas ao longo de várias gerações
guardados em livros em armários em
arquivos de televisão em caches de
sites na internet os homens da meteorologia
funcionam como demiurgos invisíveis
a mexer numa música magnética de
fios de satélites de aviões minúsculos
que deixam um rasto de nuvens brancas
artificiais iguais à formação em V das
aves migratórias mas os homens da
meteorologia não se apercebem destas
coisas a sua única preocupação
é não confundir a humidade do ar
e a velocidade do vento com um
violoncelo.

Posted at 04:19 am by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Wednesday, July 04, 2012
portas, gavetas, julho

para a Sara

tocas-me com a ponta dos dedos porque
a tua pele é uma película de filme e
à luz conta segredos com uma certa
cinematografia obscura. mas quando
me tocas com os lábios nos ombros
e no pescoço é outra coisa, é como
se um casulo se rasgasse sem sangue
nem líquidos, só seco do sol, a soltar
lá de dentro um animal fraco que procura
aninhar-se no meio das tuas pernas.

Posted at 05:11 pm by pedro tiago
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Tuesday, July 03, 2012
rusty cartoons

escolheu um serrote para colher
a garganta, encostou a lâmina à
pele e lembrou-se do tremendo
lugar-comum que é a palavra
lâmina. para qualquer efeito,
o quão usadas estão as imagens
de morte nos poemas, a facilidade
com que se usam. procurou
num casaco por alguns trocos,
encontrou um rebuçado de mentol,
duas moedas escuras, um pedaço
de cotão. estava frio na rua,
o dinheiro não chegava para um
copo de vinho no café em frente.
era mais fácil a insuficiência renal.

Posted at 09:20 pm by pedro tiago
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Monday, June 25, 2012
pequeno solilóquio às escuras

"não ter medo, não entrar em pânico. não
deves ter medo, sobretudo, de perder as
pessoas", dizes, com os olhos postos num
prato vazio, a desenhar figuras invisíveis
com o garfo na superfície da mesa. "as
pessoas não são coisas, não se ganham,
não se perdem, usualmente não se compram."
respondes-me que "toda a gente tem o seu
preço", alego que "isso é um lugar-comum,
os sentimentos, o fulcro, isso não se compra."
e dizes que dizer-te isso não deixa de ser
outro lugar-comum. e tens razão. "não queria
que este fosse um poema sobre perder pessoas.
ganhar pessoas. queria que fosse um poema
sobre a beleza de uns lábios e o calor de umas
pernas e a vontade que dá uma vulva, quando
excitada e bela, a abrir-se como uma flor de fogo
num livro de mitologia milenar perdido." contudo,
apontas-me com o garfo e mostras-me que
este poema é, na sua gramática fundamental,
um poema triste sobre o medo de se perder
uma pessoa. e eu mostro-te que é também
um poema sobre lábios, água, mãos, música.
"mas é menos isso." talvez. é um poema de
sóis que embatem uns nos outros, cosido
com algum medo, mas é, sobretudo, um poema
de amor.

Posted at 03:01 am by pedro tiago
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Friday, June 15, 2012
barítono

"um poema é ver." um poema é
chorar sobre os corpos que secaram,
sobre os que morreram, que se
esconderam em necrotérios, um
poema é ver que aqueles que se
esconderam na voz dos nomes
estrangeiros são iguais aos que
morreram, é dizer um nome outrora
conhecido e de repente a língua
estar só a dizer pó e livros velhos
sem interesse. um poema é esconder
os cadáveres dos animais de estimação
na sala grande, com o candelabro
aceso. mas um poema não é nada
disto, um poema é reconhecer que
um poema não é nada disto. um poema
passa obviamente por destruir a
palavra "poema", dilacerar o seu significado
o seu significante
até não restar nada e nesse campo
vazio poder olhar o horizonte e dar-lhe
um nome, povoá-lo com os pedaços
de amor e de medo que nos restam,
chamar-lhe "çretitre", parir duas mãos
que lavrem a terra infértil, jantar a voz
dos nomes estrangeiros, amar a solidão
quando sozinhos, à noite, não há novas
mensagens nos aparelhos e no electromagnetismo
da telecomunicação moderna, e depois
dizer que um poema é ver, que um poema
é saber ver, poder dizer, poder desconstruir,
estar só no meio de uma nódoa branca
onde as palavras são um ambiente
de comparações infrutíferas.

Posted at 02:19 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

não ver que a verdade,

na internet
H diz procurar
um homem divertido, sincero,
responsável, trabalhador
para amizade ou algo mais.
está a sorrir numa fotografia, no
canto superior esquerdo
de um rectângulo. o resto
do rectângulo está-lhe dedicado,
pagou por ele, alugou um
pequeno espaço para dizer
que tem qualidades, defeitos
menores, que gosta
de aventura, de mistério,
de surpresa, que não
pode comer ovos, porque a fazem
ficar indisposta, que já está
há mais de três anos sem
ir às consultas de psicoterapia
e que se sente bem consigo
mesma. e no computador
portátil, aberto ao meu lado
na mesa da esplanada do café
habitual, este homem está
parado em H, atentamente
a ler o que H diz acerca
de si mesma. mas se for alérgico
à saliva dos gatos é possível
que nunca a convide para sair,
que nunca se apresentem com
base no emprego que têm, e não
nas pessoas que são ou que, no mínimo,
julgam ser.

Posted at 11:49 am by pedro tiago
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Saturday, June 09, 2012
descalcificação

as mãos contra as mãos e um
pedaço de ferro dentro da boca
e a roupa que não serve e as
árvores e o caminho de terra
onde as cabras e os corvos

o meu pai

assanhado como um animal
como uma cabra como um
corvo e a garganta do meu
pai como roupa que não serve
num espaço de mitologias
que mais parecem gramáticas

se se vir bem a sintaxe musical
da mitologia,
entenda-se,
amanhã quando a cabeça do
meu pai couber nos bolsos e
dos campos colherem couves
de pus e de linfa e os
corvos apanharem os
meus olhos nos bicos para
que as futuras gerações não
morram. não me desagrada que
o meu suor nas mãos contra
as mãos

contrariando as mãos.

Posted at 02:22 am by pedro tiago
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Friday, June 08, 2012
costuma ser o esquerdo

ninguém voltou do mar naquela tarde e os
corpos que esperavam na praia eram mais
como barcos naufragados quando os
pedaços de barco naufragado deram à
costa. nessa noite disse coisas sobre o
amor e sobre a poesia junto ao teu pescoço
e fingiste que te interessava. o amor e a poesia
não têm grande relevância prática junto
ao teu pescoço quando as pessoas que
esperavam na praia pelos que morreram
no mar naquela tarde andavam agora à
solta pela vila e as suas mágoas eram
maiores do que o facto de não me poderes
amar. e nas esquinas as putas naufragavam
com o resto dos homens que tinham
chegado à costa com restos de redes
e de crustáceos, com todo o amor e com
toda a poesia que nos faltou encontrar juntos.

Posted at 01:44 am by pedro tiago
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Wednesday, June 06, 2012
lençol de água

beijar-te porque
é como beijar
uma sinfonia
que nunca
compuseram.

Posted at 04:44 pm by pedro tiago
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Tuesday, May 29, 2012
modular home

finding no solace, no relief in speech,
Rose drove all through the rundown
part of town in search of a man who
would just stand next to to her in silence
and held her hand. because sometimes
men are useless and most of the time
they do not even amount to that
uselessness. she knew the expression
"finding no solace" was cliché'd but,
still, it really was what she meant to
say when she thought it, when
her brain's mouth spoke it. "finding
absolutely no solace whatsoever
in speech, i must drive all through
the rundown part of town in search
of a watch that can still tell me whether
it's time to give up breathing or not".
instead she found a man leaving the
old automat, looking sad and aged,
capable of silence and decline. so,
they spent the night in her car,
under the railway overpass, saying
nothing, eating away at a sandwich
and seeing lights flickering, electric
daily fireflies dying on top of steel sail-
-less masts on ghost shipwrecked ships
sinking heavily into the city's belly.


Posted at 02:08 pm by pedro tiago
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lonely 2

…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


Alguns links:

Atom Fims
Bungle Fever
Charlie "Yardbird" Parker
Dario Mitidieri
Dead Combo
Edgar Libório
Entrance to The Neitherworld
Fat-pie
Gogol Bordello
Festival de Jazz de Valado dos Frades
João Pombeiro
John Coltrane
John Howe
JP Simões
The Kills
Mark Ryden
Menomena
Miles Davis
Morphine (fanzine)
Peter Gric
The Encyclopedia Of Arda
The Tim Burton Collective
The World Of Stainboy

Blog links:

"borderline bipolar"
A Caixa
A liga de Murphy
arco-iris
Atravessando o Inverno
conFusão
dawning dusk
diário de um coma
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edgarLIBÓRIO
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Thoughts...
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