Entry: barítono Friday, June 15, 2012



"um poema é ver." um poema é
chorar sobre os corpos que secaram,
sobre os que morreram, que se
esconderam em necrotérios, um
poema é ver que aqueles que se
esconderam na voz dos nomes
estrangeiros são iguais aos que
morreram, é dizer um nome outrora
conhecido e de repente a língua
estar só a dizer pó e livros velhos
sem interesse. um poema é esconder
os cadáveres dos animais de estimação
na sala grande, com o candelabro
aceso. mas um poema não é nada
disto, um poema é reconhecer que
um poema não é nada disto. um poema
passa obviamente por destruir a
palavra "poema", dilacerar o seu significado
o seu significante
até não restar nada e nesse campo
vazio poder olhar o horizonte e dar-lhe
um nome, povoá-lo com os pedaços
de amor e de medo que nos restam,
chamar-lhe "çretitre", parir duas mãos
que lavrem a terra infértil, jantar a voz
dos nomes estrangeiros, amar a solidão
quando sozinhos, à noite, não há novas
mensagens nos aparelhos e no electromagnetismo
da telecomunicação moderna, e depois
dizer que um poema é ver, que um poema
é saber ver, poder dizer, poder desconstruir,
estar só no meio de uma nódoa branca
onde as palavras são um ambiente
de comparações infrutíferas.

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