Entry: pequeno solilóquio às escuras Monday, June 25, 2012



"não ter medo, não entrar em pânico. não
deves ter medo, sobretudo, de perder as
pessoas", dizes, com os olhos postos num
prato vazio, a desenhar figuras invisíveis
com o garfo na superfície da mesa. "as
pessoas não são coisas, não se ganham,
não se perdem, usualmente não se compram."
respondes-me que "toda a gente tem o seu
preço", alego que "isso é um lugar-comum,
os sentimentos, o fulcro, isso não se compra."
e dizes que dizer-te isso não deixa de ser
outro lugar-comum. e tens razão. "não queria
que este fosse um poema sobre perder pessoas.
ganhar pessoas. queria que fosse um poema
sobre a beleza de uns lábios e o calor de umas
pernas e a vontade que dá uma vulva, quando
excitada e bela, a abrir-se como uma flor de fogo
num livro de mitologia milenar perdido." contudo,
apontas-me com o garfo e mostras-me que
este poema é, na sua gramática fundamental,
um poema triste sobre o medo de se perder
uma pessoa. e eu mostro-te que é também
um poema sobre lábios, água, mãos, música.
"mas é menos isso." talvez. é um poema de
sóis que embatem uns nos outros, cosido
com algum medo, mas é, sobretudo, um poema
de amor.

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